Sem querer parecer bajulador ou coisa parecida, acho que se eu quisesse definir, da maneira mais objetiva, o tipo de cidadão e profissional que o Kennedy se propôs a moldar, acho que o Cláudio Seignemartin é a amostra mais próxima disso!

Embora, eu fosse alguns anos mais novo que ele (o que fazia muita diferença, então), lembro do Cláudio, como colega de turma de meu irmão mais velho e que morava na rua paralela à minha. Ele era o melhor aluno da turma, atleta e envolvido com a escola e sua turma.

Bem-sucedido, tanto na vida acadêmica, como profissionalmente, ele nos enviou esse agradável texto para nos lembrarmos daqueles bons tempos da escola pública, assim como um depoimento àqueles que não puderam usufruir disso tudo!

Orestes Camargo Neves


Sou Kennedy 

Em 1960, vindo do Grupo Escolar Dr. Castro Gonçalves e passando pelo exame de admissão, comecei a ter minha história ligada à história do Kennedy. Nem eu sabia disto ainda, nem John Fitzgerald, que ainda não era presidente dos Estados Unidos, poderia suspeitar que iria virar nome de uma escola no sul do Brasil. E justamente em uma cidade onde  imigrantes confederados sulistas americanos foram se instalar, após saírem de seu país depois de uma guerra interna sangrenta, para viver uma outra realidade ao sul do equador. 

Comecei no tempo do Colégio Estadual e Escola Normal de Americana. Os cursos funcionavam no prédio da Escola de Comércio durante o dia e no Grupo Escolar Heitor Penteado durante a noite. 

Durante os meus anos de ginasial foi quando se processaram grandes mudanças na escola. Primeiro quando foram criados alguns Institutos de Educação no estado, assim chamados pela sua localização geográfica, pela excelência da educação oferecida e pela organização e capacidade de aglutinar estudantes, funcionários e professores. Foi, então, criado o IEA, Instituto de Educação de Americana, muito trabalho de várias pessoas e muito da mão da nossa diretora, Aparecida Paioli. Nesse momento, também estava sendo construído o prédio novo, onde as condições de ensino e trabalho seriam sensivelmente melhores e mais modernas, com laboratórios e biblioteca, além do auditório e das quadras esportivas. Para lá mudamos no começo de 1963. Mesmo ano em que, no mês de novembro, morreu o Presidente Kennedy, assassinado em Dallas. Era o meu último ano de ginasial. Quando voltamos, em 1964, para começar o científico, já era o IE Presidente Kennedy, que ganhou esse nome também pelo esforço de várias pessoas da cidade, com nossa diretora à frente. 

Esse conjunto de situações e alterações melhorou a logística e a dinâmica do ensino que nos preparou para a faculdade e para a vida. Sentimos nossos horizontes se abrirem e a nossa visão de mundo começar a se formar, e a convivência com os mesmos 19 amigos, do começo ao final dos três anos demandantes do científico, formou um círculo de amizades tal, que extravasava a sala de aula e incluía o todo. O Kennedy era nosso ambiente. Éramos, sem saber definir isto àquela época, parte dessa confraria agora definida e consolidada. Sentíamos como sendo parte de algo muito maior. 

A nossa amizade foi selada, novamente em 2016, em um encontro comemorativo dos  50 anos de formados, quando nos vimos quase todos outra vez em Americana. Uma ausência notável, a do amigo e economista Luís Cardoso, que já havia falecido. Pouco tempo depois desse encontro, o  grande amigo e brilhante matemático, Luciano Barbanti, também se foi. E mais recentemente, também se foi o Ribamar. Então estamos aqui hoje os 16 reminiscentes da turma de 1966: Maria Luiza, Leda, Sônia, Renato, Chama, Rubens, Sarmento, Djaime, Carlos Alberto, Milton (Nick), Tó Boer, Zé Luís Boer, Aníbal, Bencion, Bertini e eu, Claudio (Castor). Nessa pequena, mas significativa comemoração dos nossos 50 anos, estivemos juntos com 2 dos mestres, Celso Favareto, único mestre ainda vivo que foi nosso professor, e o Josué Mastrodi, e vários amigos e contemporâneos e seus familiares. Um deles, o Gilnei Rampazzo que fazia clássico à mesma época nossa, veio com a Eliane Cantanhede, que na semana seguinte publicou na sua coluna no Estadão uma matéria: “O Ensino que ensinava”, falando do tipo de ensino e ambiente que tivemos, do IEPK, da nossa turma e de todos os seus componentes.  E do que alguém como nós, saídos de uma escola do interior de São Paulo, com o ensino de qualidade como base, poderia alcançar se continuasse a trabalhar da maneira como estudávamos e participávamos: com seriedade, com vontade e com alegria! Estávamos lá nas equipes de esportes do colégio e da cidade, nas feiras de ciências, nas festas juninas e das nações, na direção do grêmio, na fanfarra, nas peças de teatro, na União Estudantil Americanense. E líamos e estudávamos muito, muito mesmo, passando por provas, testes e exames quase todas as semanas. E ainda achávamos tempo para ir ao clube nadar, ao cinema, aos bailes e festas de amigos e no Rio Branco, montar blocos de Carnaval e sair com amigos e amigas. Namorávamos e muitos de nós tiveram e têm seus companheiros e companheiras de vida dentre as e os colegas do Kennedy. Hoje às vezes olho para trás e penso: como conseguíamos fazer isto tudo? Mas, sim, fazíamos tudo com muito prazer, muita disposição, e muito foco em fazer tudo bem. Com isto acumulamos muitas experiências e muita vivência. 

Na nossa turma de 1966 tomamos vários caminhos. Há engenheiros, professores universitários, general do exército, administradores de empresas, economistas, médicos, enfermeira e geólogo. Muitos com mestrado, doutorado e pós- doutorado. Gente que contribuiu e contribui para com o desenvolvimento da vida pública, da saúde, das ciências, das artes, da cultura, e no crescimento das instituições, de empresas próprias, públicas e privadas por onde passamos. No Brasil e no exterior. 

Cito os nomes de nossos professores do científico e com isto homenageio a todos os que eram os mestres nos anos todos em que vivemos o Kennedy: Argante Dimenco, Wilson Camargo, Rosanio Braga, Celso Favareto, Laís Helena, Arminda, Diniz, Lauri Rechinelli, Jandira, Rubens. 

Essa convivência intensa com a escola, com os colegas, com os funcionários e com os mestres criou em nós o que sentimos bem vivo dentro de nós, mesmo depois dos mais de 60 anos, desde o início de nossos primeiros passos lá atrás: um grande amor pela educação, pelo aprendizado e pela instituição que nos formou. Um enorme respeito pela secretaria do “seu” Marcelino Tombi, pelos funcionários todos que cuidavam do bem-estar de todos nós e faziam a instituição funcionar. E pela direção segura e eficiente, dura por vezes, mas principalmente justa, da nossa diretora, Aparecida Paioli. Sabemos que devemos nosso sucesso ao que trouxemos para nossas vidas das nossas famílias, do convívio com nossos amigos e mestres e do IEPK, um grande modelo de ensino desenvolvido por gente competente na pequena cidade de Americana. Todos os que por lá passamos, temos esse sentimento dentro de nós, independentemente da idade. Sei hoje que não sou Kennedy apenas. Embora tenha feito o caminho inverso dos confederados e viva nos Estados Unidos, sinto esse sentimento de pertencer presente na nossa alma, no nosso âmago, lá dentro de cada um de nós que passou por essa escola nessa fase. 

SOUL KENNEDY é a definição perfeita para esse sentimento. 

Cláudio Seignemartin

  • Castor para os amigos de sua turma e para os companheiros do vôlei, americanense da gema, Kennedy de 1960 até 1966.
  • Geólogo, com mestrado e doutorado pela USP e MBA, pela St. Joseph’s University.
  • Trabalhou e ensinou em várias áreas da Geologia, no Instituto de Energia Atômica, no IPT e na UNESP (Botucatu e Rio Claro). Na área de gestão, trabalhou no Grupo Itaú, no grupo americano FMC (no Brasil e nos Estados Unidos) e no grupo inglês Compass, no Brasil e no México.
  • Casado com Josebete, ex-Kennedy, pai de 4 filhos e avô de 6 netos. Vive hoje nos Estados Unidos.

Você também pode gostar:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.