Alegria, saudade, amizade, saber… Por entre nuvens branquinhas e um céu infinitamente azul emerge nas alamedas da memória a imagem luminosa da escola querida. IEEPK…TUM…TUM …TUM…IEEPK ! Manteiga derretida, você certamente se emociona até hoje, ao recordar esse que brado nos fazia a todos heróis e guerreiros, fortes e capazes de enfrentar o mundo. E que mundo, hein bicho! Legal! Uma brasa, mora?

Podes crer, amizade ! Nos anos 60, quando eu e minha irmã Cidinha estudávamos no Heitor Penteado, uma escola maravilhosa, minha irmã Zezé estudava no Kennedy. Sempre colados nela, captávamos as novidades do planeta em plena Guerra Fria, com Beatles, Bruce Lee, Governo Militar, Bossa- Nova,  movimento hippye, etc., etc. e etc., numa salada de frutas política e cultural, em tempos de intensa efervescência.  Acho que nunca em minha vida usei o etc. com tanta propriedade. Sempre orquestrados por Zezé, acompanhamos o primeiro transplante do coração da história, na África do Sul, pelo Dr. Cristhian Barnard. Televisão chuviscando pra caramba… encantados com a chegada do homem à lua …Armstrong… os festivais …inesquecíveis… a Jovem Guarda…Pelé…Brasil logo de cara tomando sufoco da Tchecoeslováquia na Copa do México…Transamazônica…Eu te amo meu Brasil !

E, aos ventos do Tropicalismo, inflados pelo sentimento ufanista de Brasil Tricampeão, íamos todos como um bando de tagarelas pardais, brincando, sorrindo, caminhando e cantando (e estudando nos dias de prova), encontrando os colegas, comentando sobre os professores que admirávamos e que nos conheciam pelo nome.  À hora da chamada, infalível em todas as aulas, todos já se encontravam em seus respectivos lugares, numa cumplicidade que era também respeito pelo mestre e disciplina. Fôssemos ricos ou pobre, brancos ou negros, destacávamo-nos pelo mérito e pela inteligência, porquanto éramos todos democraticamente iguais. O uniforme?  Rigorosamente impecável! A barra das saias das meninas? Dois dedos acima do joelho… Camisa sem o bolso escolar? Simplesmente não havia. Papel de bala? Nenhum,  naqueles imensos corredores reluzentes, testemunhas do silêncio que neles pairavam na hora da aula.

Bom …! Havia também o Jopepá, a banana split, os encontros nas quadras e piscinas do Rio Branco, a Fonte Luminosa, as sessões dos Cines Cacique e Comendador… Os filmes de Tarzan… As matinês eram então comandadas pelo saudoso Geraldo Pinhanelli, em cujo programa fui ler, na hora do almoço ( sabendo estar minha mãe ouvindo pela Rádio Clube de Americana) a minha redação vencedora na semana da pátria, levado pela nossa musa, Liliane de Almeida Campos, em seu potente Corcel amarelinho. Ao chegar à escola, um pouco atrasado, pois o programa acontecia na hora do almoço, deparei-me com um cartaz, escrito pela nossa diretora: ”A mim me basta a proteção de Deus “. Não sabendo ainda o que era um pleonasmo estilístico, pensei comigo, do alto de minha ingênua aura de menino escritor: “ A mim me basta …como pode uma coisa dessas ?” Além de mandar pra ”tonga da milonga docabuletê”  àqueles que nos enchiam o saco com muito papo furado, curtíamos  as rodas de violão, com músicas de Vandré, Taiguara e Chico Buarque…

De Jorge Amado a Vinícius de Moraes e Drummond, diversos livros que ainda criança me conquistaram, sempre nas trilhas dos professores e da mana querida … Eram os Deuses Astronautas?… Recordo que, quando o filme entrou em cartaz, fui de noite até o Cine Brasil. Fila imensa, dobrando a esquina… Não pude assistir pela idade, ironia para um garoto que tinha lido o livro…  Papillon,  O Pequeno Príncipe,  Macunaíma, Meu Pé de Laranja Lima, Rosinha minha Canoa, enfim… Fernando Pessoa, Machado de Assis – obrigado Nazime El Kadri, pelo Quincas Borba -, gratidão e saudades de tudo.. Ao Mestre com Carinho, Romeu e Julieta,  Love Story….lembra? Fora aqueles aos quais não pudemos assistir, como O Último Tango em Paris, O Exorcista, O Dólar Furado, A Primeira Noite de um Homem …

Enfim, deste pequeno cinema transcendental, ficam as lições mais importantes que nos foram legadas pelos mestres e amigos: o valor do conhecimento, do respeito, da fé na humanidade e da alegria de sermos bons. Impossível não recordar o time de futebol dos estudantes da oitava série, por mim convocados, e que durante anos se destacou como uma das melhores equipes da cidade, vencedor de memoráveis combates, capaz de fazer temer os mais fortes adversários. Impossível, outrossim,  olvidar a assinatura da nossa ilustre diretora, Dra. Aparecida Paioli, que tão perfeitamente aprendi a copiar- e da qual me lembro até hoje- autorizando inúmeras dispensas pra rapaziada, até que um dia a casa caiu. Mas, esses e homéricos outros feitos (como jogar sabão em pó na Fonte luminosa, ouvir as canções de Cartola e ver os seriados do Batman) ficam para uma outra ocasião, que agora, em Disparada, o velho coração pede uma pausa. Nele, porém, cabem infinitas amizades e recordações. Obrigado a todos, funcionários e diretores! Obrigado aos mestres! Gratidão, gratidão imensa! Silêncio agora! Repare: É impressão minha, ou você também está ouvindo esse Tumtumtum? Obrigado, amigos! Ouço perfeitamente a voz de cada um de vocês! IEEPK! IE

Fernando D’Andrea

Você também pode gostar:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.